De um movimento pioneiro nos anos 1970 a um cenário que hoje recebe títulos continentais e envia cada vez mais representantes ao mundial, a gatofilia brasileira evoluiu em organização, padrão e visibilidade.

A gatofilia no Brasil caminhou por décadas de forma discreta, restrita a grupos pequenos e entusiastas que mantinham a criação de gatos de raça de maneira informal. Com o tempo, esse universo ganhou estrutura, regras, calendário de eventos, formação de juízes e conexão internacional. Hoje, o país não apenas realiza exposições de grande porte, como também recebe títulos continentais da FIFe, além de ampliar sua presença no campeonato mundial.
1972, o nascimento do primeiro clube, um ponto de virada
Um marco na história da gatofilia brasileira é a fundação do Clube Brasileiro do Gato (CBG), em 1972. A criação do clube ajudou a organizar criadores, registrar pedigrees, promover eventos e aproximar o Brasil do cenário internacional. Documentos institucionais do próprio CBG apontam esse período como o início do movimento estruturado no país, inspirado em modelos europeus.
Box, o que é gatofilia?
Gatofilia é o conjunto de atividades ligadas ao universo dos gatos de raça, incluindo criação responsável, estudo de padrões, registro, exposições, títulos e formação técnica. Na prática, envolve saúde, bem-estar, temperamento e preservação de características de cada raça.
As primeiras exposições e a consolidação do calendário
Ao longo das décadas seguintes, as exposições começaram a se tornar mais frequentes e organizadas. Nas primeiras fases, era comum a presença predominante de raças tradicionais, como Persas e Siameses, com um cenário ainda em construção. Com o tempo, clubes e federações ampliaram o calendário, atraíram juízes convidados e elevaram o nível do julgamento, aproximando o país dos padrões internacionais.

Linha do tempo, marcos recentes que mudaram o jogo

World Winner e American Winner, por que esses nomes importam
Box, World Winner x American Winner
World Winner
O World Winner é o campeonato mundial da FIFe e é considerado o evento felino mais importante do mundo. Ele acontece uma vez por ano e reúne exemplares de alto nível de diversos países, avaliados por um painel internacional.
- Escala: mundial
- Frequência: anual
- Prestígio: topo do circuito internacional
American Winner
O American Winner é um título continental da FIFe, disputado entre gatos das Américas. Também ocorre anualmente e reúne competidores de vários países, funcionando como vitrine continental de alto prestígio.
- Escala: continental, Américas
- Frequência: anual
- Prestígio: destaque continental, caminho forte rumo ao mundial
O Brasil no mundial da FIFe, uma presença que cresce
Além de sediar eventos continentais, a presença brasileira no World Winner da FIFe vem ganhando destaque. Clubes e federações brasileiras têm divulgado, com cada vez mais frequência, conquistas e participações de gatos nacionais em palcos internacionais. Isso indica uma maturidade crescente do cenário brasileiro, com foco em padrão de raça, apresentação e planejamento de longo prazo.

O que mudou no público, na criação e nas raças
Nos últimos anos, a gatofilia também se beneficiou da visibilidade trazida pela internet. O público passou a conhecer raças antes raras no Brasil e a se interessar por comportamento, saúde e bem-estar. As exposições, por sua vez, deixaram de ser apenas ponto de encontro entre criadores e se tornaram espaço educativo, aproximando visitantes do universo felino.
Reconstruindo a gatofilia no Rio de Janeiro
A Mundo Felino conversou com Flavio Vicente Pinto, fundador do Rio Cat Clube e presidente da entidade até 2024. Criador, expositor e uma das figuras centrais na retomada das exposições felinas no estado do Rio de Janeiro, Flavio fala sobre os obstáculos, aprendizados e o legado de uma década de trabalho.
Mundo Felino: Fomentar a gatofilia no Rio de Janeiro foi um desafio grande. Como era o cenário quando você começou?
Flavio Vicente Pinto: O Rio de Janeiro é um dos estados mais importantes do país, mas ficou abandonado por muitos anos no que diz respeito à gatofilia. Quando começamos, não havia exposições, nem apoio técnico para os criadores. Muitos estavam isolados, sem referência, sem orientação e sem oportunidades de aprender sobre os padrões das raças que criavam.
Mundo Felino: De que forma essa ausência impactava os criadores?
Flavio Vicente Pinto: Impactava diretamente na qualidade das criações. Sem exposições, o criador não consegue avaliar o próprio plantel. Ele não entende com clareza quais são os pontos fortes e fracos dos seus gatos, nem sabe o que buscar em novos reprodutores para evoluir a raça. As exposições são fundamentais para esse aprendizado, porque colocam o criador em contato com juízes, outros criadores e com o padrão real da raça, não apenas com o que se vê em fotos ou textos.
Mundo Felino: Conquistar a confiança dos criadores também foi um desafio?
Flavio Vicente Pinto: Sem dúvida. Muitos criadores estavam desacreditados, alguns nunca tinham participado de uma exposição, outros tinham experiências antigas e não viam mais sentido em competir. Foi um trabalho de formiguinha, mostrar que a exposição não é apenas sobre ganhar títulos, mas sobre aprender, trocar experiências e evoluir. Levar os criadores de volta às pistas exigiu diálogo, paciência e consistência.
Mundo Felino: O retorno do Rio de Janeiro ao calendário nacional de exposições foi um marco. Como você vê esse momento?
Flavio Vicente Pinto: Trazer o Rio de Janeiro de volta ao calendário nacional depois de tantos anos de hiato foi uma das maiores conquistas. Não foi fácil, houve muitas dificuldades, pouca ajuda e muitos obstáculos logísticos e financeiros. Mas ver o estado novamente recebendo exposições, criadores de outras regiões e juízes internacionais mostra que o esforço valeu a pena.
Mundo Felino: Nesses 10 anos de trabalho pela gatofilia do Rio de Janeiro, o que você considera sua maior conquista?
As conquistas nunca foram individuais. Elas pertencem ao Rio Cat Clube e a todos os criadores que confiaram no projeto e caminharam junto comigo ao longo desses anos. Se eu puder destacar um momento que simboliza esse esforço coletivo, foi a realização do American Winner no Rio de Janeiro.
Embora eu já não estivesse mais à frente do clube naquele momento, atuei como diretor da Federação Felina Brasileira e participei ativamente da organização e da execução do evento. Trazer o American Winner para o Rio era um sonho antigo, e ver esse projeto concretizado foi, ao mesmo tempo, o maior desafio e a maior realização da minha trajetória na gatofilia.
Mundo Felino: Você deixou a presidência do Rio Cat Clube em 2024. O que pesou nessa decisão?
Flavio Vicente Pinto: Foram cerca de dez anos de muito trabalho intenso. Chegou um momento em que, por questões pessoais, senti que precisava parar. Também acredito que já tinha contribuído bastante com a gatofilia do estado e que era importante abrir espaço para novas pessoas, com novas ideias, assumirem o clube. A renovação é saudável para qualquer instituição.









